Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008
 
Amiba Parte 2 – O amor! Sim, esse mesmo.

Amiba não ama… existe.
Entre as compras a crédito e a novela das nove tiramos uma foto como o nosso celular topo de gama para eternizar o momento de felicidade. Tu e eu sorridentes em 3 megapixels.
Amamo-nos loucamente nos primeiros meses, depois vemos que o outro nem é assim tão especial… dá trabalho tentar compreender o porquê, custa deixar de fazer o que nos dá na gana, não compensa viver em função do outro e o “nós” dá um trabalhão. O que fazer??
Consumido um produto olhamos para o lado e vemos outro! Que bom, bora consumir.
Ou… que tal se eu reduzisse este rapaz a uma amiba?? Sem pensamento, sem autonomia, sem vontade ou determinação… ninguém chateia ninguém e somos felizes.
É triste mas é assim em muitos casais que todos conhecemos. Um deles abdica de si mesmo e vive em função daquilo que o outro quer, pode e manda.
Lembro-me de um amigo, fantástico, rapaz bem-humorado, bom conversador, sempre pronto para uma maluquice qualquer, amigo do amigo que hoje em dia se limita a comer, mover-se e reproduzir-se. No entanto, consome e pensa que é feliz a dois.
Existe. Trabalha no que não gosta, deita-se com quem não gosta e já não conhece, compra o que não precisa e vende a sua a alma a uma felicidade fácil. Porque dentro do rebanho todos somos felizes, porque no rebanho as ovelhas são todas iguais, comem, movem-se, reproduzem-se e compram. Compram o que alguém lhes disse que deveriam comprar para serem felizes.
O amor ainda existe?
Como dizia o poeta: Estamos cheios de amor, amor-próprio.

Banda Sonora: U2 - Bad

Terça-feira, Fevereiro 19, 2008
 
Amiba Parte 1 – A sociedade.

A amiba é um ser unicelular que pertence ao grupo dos amebóides e que é caracterizável pelo modo de vida que se reduz a: alimentação, locomoção e reprodução.
Locomove-se porque precisa de comer, come porque precisa de se mover e reproduz-se dividindo-se pois é normal que assim seja, sem mais. Carece de forma, e não tem membros com a excepção do pseudópode algo como um “pseudo-pé” que serve para a locomoção e captura de alimentos.
É dos tipos de vida mais básicos que existe e a sua simplicidade é aterradoramente eficaz.
Curiosamente… muitos de nós temos muito de amiba. Comemos, movemo-nos, reproduzimo-nos e basta. Isto deve-se a vários factores, a sociedade que temos e adoramos, e outros que são invenção nossa, patenteados e aceites pela sociedade.
No primeiro caso somos reduzidos a consumidores sem critério pois é mais fácil consumir do que ter critério. Consumimos tudo o que nos dão e que segundo alguém que ninguém sabe quem é, se destina exclusivamente à nossa felicidade, de preferência sem a utilização do pensamento. Consumimos TV, consumimos ideais, consumimos Presidentes e Primeiros-Ministros, opiniões, notícias, visões globais do mundo, visões parciais da sociedade, visões totais sobre o outro, sexo, amor, musica, corpos perfeitos, animais de estimação, Natal, Páscoa, SMS, Celulares, GPS, Visa e Mastercard. Tudo o que for vendável, consumimos, tudo o que exigir esforço, descartamos.
Não temos fé, não acreditamos em ideais, não temos informação (apenas notícias), não há amor no nosso coração, não há interesse pelo próximo, não há tolerância, desconhecemos em absoluto a cultura, não sabemos de onde vimos nem para onde vamos, muito menos porquê… mas somos felizes.
Somos profundamente infelizes no nosso trabalho que serve apenas para podermos comprar coisas que não precisamos e que supostamente nos vão dar felicidade.

Banda Sonora: Portugal. The Man - How the leopard got its spots

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008
 
A forca

Já que adorar-me dizes que não podes,
Imperatriz serena, alva e discreta,
Ai, como no teu colo há muita seta
E o teu peito é peito dum Herodes.

Eu antes que encaneçam meus bigodes
Ao meu mister de ama-te hei de pôr meta,
O coração mo diz – feroz profeta,
Que anões faz dos colossos lá de Rodes.

E a vida depurada no cadinho
Das eróticas dores do alvoroço,
Acabará na forca, num azinho,

Mas o que há-de apertar o meu pescoço
Em lugar de ser corda de bom linho
Será do teu cabelo um menos grosso.

Cesário Verde

Banda Sonora: Gogol Bordello - Wonderlust King


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